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A GESTA DO JARDIM DA AZINHAGA

por DonaHistoria, em 14.05.09

 

    Tenho um jardim, um pequeno jardim que amo porque é o meu primeiro jardim. Nasci na cidade, rodeada por betão, tijolos, pela negrura das ruas onde o sol, por mais teimoso que possa parecer, envergonha-se de entrar. A minha memória da cidade é escura como um véu de luto. Do campo, empresa tardia mas bela, na minha vida, adoro a luminosidade do entardecer, luz mágica que consegue embelezar as plantas menos vaidosas e os recônditos mais escusos. O meu jardim é a minha casa. Mais do que um motivo de orgulho perante a vizinhança, que espreita clandestinamente pelas oportunidades, o meu jardim é um local de prazenteiro trabalho. Sim, trabalho, porque um jardim significa sangue, suor e lágrimas. Sangue, que se esvai das minhas mãos, provocado pelos cortes que os malévolos espinhos das roseiras teimam em ferir. Suor, salgado e abundante, que me corre pela testa, pelo corpo, por todos os poros sudoríferos, fruto do intenso trabalho de manutenção, necessário para que um jardim não se transforme numa selva. Lágrimas, só de alegria, ao contemplar o resultado de tão hercúleo labor. Na verdade, o meu pobre jardim só tem uma jardineira. Jardineira pouco experiente, mas empenhada, hábil e, sobretudo, motivada.

 

Implantado numa quieta aldeia do interior, tão perto quanto distante da capital, o meu jardim é o rei dos jardins das imediações. Nenhum se lhe assemelha, em beleza, tamanho ou graciosidade. Por vezes, ouço os comentários invejosos dos jardins da vizinhança, que sussurram noite fora, mostrando o seu despeito. «Mais novo do que nós e mais belo», comentam os outros jardins,  muitas vezes  deprimidos com problemas de identidade. «Serei uma horta ou um jardim?», pensam sem cessar. O meu jardim, porém, não possui esse tipo de problema. Nele não reside nenhuma espécie de hortaliça ou planta hortícola que o possa confundir. Não que eu tenha algo contra esses géneros de plantas, mas num jardim não devem coexistir...

 

 

    O meu jardim tem muitas espécies botânicas. No entanto, o género que mais se propaga é a generosidade. Grande parte das flores e plantas que lá se encontram foram ofertas gentis de vizinhos e amigos. Confesso que, porventura, existem lá plantados alguns frutos de roubos sorrateiros, que aproveitaram a ausência ou a distracção de alguns donos. Na verdade, tenho uma jardineira minha amiga que diz que as espécies roubadas são as que se desenvolvem com maior impetuosidade. Creio que esta consideração carece de prova científica, mas, cá para mim, é um bom argumento para se procederem a alguns «desvios». Pensando bem e corroborando um pouco a tal jardineira, eu penso que as plantas não deveriam ter dono, não fazendo logo  sentido a acção de roubo. Atribuir um dono a uma planta é quase tão tétrico como atribuir senhorio ao vento ou à água. «De quem é aquela nuvem?», parece ser uma pergunta ou pouco patética. Não estou com isto a aceitar a invasão da propriedade privada para desvio de flores ou plantas. Mas, meus caros, aquelas espécies que se encontram a pender para os caminhos ou nos jardins públicos são tentações mais fortes do que a luxúria, para alguns de nós....  Para terminar, por esta vez, aproveito para agradecer à minha vizinha, cujo nome é partilhado pela mater dolorosa, o desvelo que tem oferecido ao meu jardim, nomeadamente durante o tempo seco. É a pessoas como ela que a Natureza tem a agradecer... Mas sobre ela voltarei a falar numa próxima ocasião …

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